Cruzamos à noitinha os limites de Seattle e formos direto para o albergue que constava no guia. Foi simples situar-se naquela cidade, pois o Space Needle, este enorme prédio em forma de disco voador, podia ser visto de praticamente qualquer ponto da metrópole, servindo de inevitável ponto de referência para o visitante. Seattle, espaçosamente distribuída em uma vasta planície, era uma cidade úmida e fria, mesmo nos dias de céu profundamente azul de verão. Era a última grande cidade americana a oeste do continente, perfeita para uma última parada antes de se alcançar região fronteiriça com o Canadá. Depois, o Alasca!
O albergue ficava cercado pelas retas e sóbrias paredes de um prédio de dez andares, com instalações de design moderno, o que o tornava bem diferente dos demais estabelecimentos em que ficamos ao longo da viagem. Aspirantes a hóspedes enfileiravam-se em frente a um balcão no hall de entrada, ditavam suas informações pessoais para os entediados recepcionistas e pagavam, em dinheiro vivo, a próxima diária. Em troca, os recepcionistas displicentemente perguntavam:
- Tarefa diária ou noturna? Limpeza ou arrumação?
Isso porque a todos os hóspedes cabiam as tarefas de manutenção do albergue, que não possuía funcionários contratados e por esse motivo só permanecia aberto de cinco da tarde às dez da manhã. Os “recepcionistas”, hóspedes falidos na sua totalidade, eram seres que negociaram pagar diárias devidas realizando um trabalho digno, porém monótono.
Tratava-se de um sistema eficiente, que atendia bem ao seu público-alvo, os turistas backpackers (mochileiros). Garantindo ser sempre baixo o custo de sua manutenção, o albergue podia cobrar diárias realmente baratas e oferecer instalações confortáveis, que incluíam uma ampla cozinha comunitária totalmente equipada e TV a cabo no refeitório. Mais barato do que os albergues, somente a ACM (Associação Cristã de Moços, que os americanos insistem em chamar de YMCA), mas esta se assemelhava mais a um abrigo cuja segurança não era o ponto forte, segundo nos alertaram em algum momento.
As tarefas do albergue de Seattle eram simples e leves: consistiam, se relacionadas à limpeza, na coleta dos sacos de lixo depositados nos compartimentos em cada um dos andares. Os sacos, após serem recolhidos, eram colocados em um carrinho e transportados até a calçada, e deixados em frente à portaria. Tudo sem contato manual com o lixo, pois o hóspede era orientado a usar as luvas impermeáveis para realizar as tarefas. Se a tarefa tinha a ver com arrumação, cabia ao hóspede colocar os novos lençóis e colchas limpas nos beliches que haviam sido desocupados pela manhã. Cada um realizava sua tarefa exclusivamente no andar no qual se encontrava alojado.
Pagamos os quinze dólares cada e fomos direto para o quarto, um grande salão com dez beliches, de acesso com um código numérico a ser digitado pelo hóspede na fechadura e que era substituído diariamente. Assim, quando o hóspede pagava a nova diária, ele recebia o código secreto atualizado, somente válido para aquele dia. Simples, mas eficiente, esse sistema procurava oferecer alguma segurança aos hóspedes que deixavam pertences nos quartos, quando se ausentavam em suas turnês turísticas.
Escolhi a cama de cima, num canto próximo à janela. Meus companheiros de viagem conseguiram um beliche vazio próximo ao meu e assim nos alojamos, curiosos a respeito dos nossos parceiros de quarto. O albergue não estava especialmente cheio, mas no quarto em que ficamos já habitavam quatro americanos, um canadense e um italiano, que tinham acabado de retornar de um exaustivo e calorento dia de passeio. Pelo menos era o que indicava o odor que exalavam. Tratamos de nos apresentar e, como sempre, nossa nacionalidade causava algum interesse.
- Brassil? Buenas noches, amigos! Disparou logo Joe, o baixinho americano que já estava bêbado àquela hora. O italiano era o único ali além de nós três que parecia saber que o espanhol não era a língua nativa daquele nosso imenso país sul-americano e ficou curioso sobre o que nos trouxera a Seattle.
- Vamos para o Alasca – expliquei, no italiano que não aprendera de berço.
- Isto é, depois de descobrimos como . – emendei, em português moderno mesmo.
Porque àquela altura dos acontecimentos, não sabíamos como chegaríamos ao Alasca. Nosso escasso dinheiro tinha praticamente se esgotado, tendo restado pouco mais de quinhentos dólares entre nós três. Gastávamos mal, sempre comprando bugingangas no caminho e pagando caro pela péssima comida das lojas de conveniência nas estradas, mas procurávamos nos convencer que, uma vez empregados, ganharíamos mais do que o suficiente para custear as nossas extravagâncias.
Naquela nossa primeira noite em Seattle, resolvemos dar uma circulada, já que ainda teríamos o bom Plymouth em nosso poder até o dia seguinte, quando iríamos finalmente entregá-lo, em alguma garagem nos subúrbios da cidade.
Rodamos sem destino, falando sem parar sobre como a recepcionista do albergue era gostosa, até que nos deparamos com um lugar que parecia bastante animado. Festa! Música ao vivo! Era uma enorme loja de roupas jovens e era claro que algo de especial estava acontecendo por lá, já que havia um grande burburinho dentro e fora do lugar. Fomos conferir e nos vimos penetras na festa de lançamento de uma coleção de jeans, na qual uma banda de grunge rock se apresentava, talvez o Nirvana bem no início da carreira. Seria bem conveniente...pois alí era o paraíso na terra pra gente, até porque era de graça a entrada.
Gatas e rock na primeira noite em Seattle não era pouco para nós, cansados viajantes, cujo futuro nos pareceria um tanto incerto pela manhã.
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