Chegar a São Francisco dá uma sensação forte de déja vu, aquilo que te dá quando a décima pessoa sem noção começa a te explicar o que essa expressão significa. Quem é velho o suficiente para ter pêlos nas orelhas e se perguntar para que servem, já assistiu trocentos filmes focalizando aquele visual belíssimo da baía de Hudson e da Golden Bridge, e sabe o que eu quero dizer. Aliás, essa é a sensação freqüente que o visitante experimentava, quando se deparava pela primeira vez com as localidades cujas imagens se tornaram clássicas graças ao cinema ou à TV. Era o preço pago pelos americanos, que acostumaram-se a despejar pelo mundo afora, em forma de rolos de filme e roteiros repletos de chavões, suas obras repletas de ideologia auto-promocional. Nada contra. Assisto de montão, feliz da vida.
Verdade ou ficção, em algumas situações surreais me ocorria uma dúvida terrível sobre quem tinha aparecido primeiro na Califórnia:
a) as pessoas comuns, cujos diálogos se pareciam mais reais na tela do que à luz da vida
b) a Associação Hollywoodiana de Redatores
Dia desses, perguntei ao meu amigoTarantino, "me diz aí quem surgiu primeiro". Ele me respondeu, com aquele jeitinho que é só dele:
- É claro que foi a AHR. E já falei que meu nome é TarantiNHO, não sou seu amigo e não entendo picas de cinema.
Mesmo assim, ficamos fascinados com a imagem da bela ponte naquela cor incrivelmente alaranjada, com a baía de Hudson ao fundo e resolvemos dar uma parada para observar o crepúsculo que se avizinhava. Paramos o carro num local que consideramos seguro e, de câmera na mão, fomos registrar o visual. Dois cliques de máquina fotográfica depois, nos vimos completamente cercados de policiais carrancudos com suas mãos rosadas sobre os coldres. Deviam ser uns quatro carros de polícia, incluindo uma van daquelas de transporte de presos. Um verdadeiro destacamento coloria a paisagem com suas luzes giratórias, tendo o nosso carro no centro do círculo, refletindo o espetáculo.
Alguém gritou "freeze!"
Foi tudo muito rápido e ficamos mesmo congelados, à espera de instruções e dispensando traduções. Àquela altura, com mais de cinco mil quilômetros de estradas americanas percorridas, já estávamos mais que experientes sobre como agir na mira de uma corporação que atirava antes e perguntava depois, a temida polícia dos gringos. Assim como naquele jogo infantil “como está fica”, prendemos até a respiração. Um dos oficiais se dirigiu a nós bruscamente, exigindo que nos identificássemos e perguntando o que fazíamos ali.
A minha resposta podia envolver a mãe dele e me colocar em alguma encrenca, por isso me limitei a entregar a ele o meu passaporte verde brasileiro, todo amassadão, e minha carteira de motorista internacional fuleira, emitida pela instituição mundialmente desconhecida e ignorada, que era o Automóvel Club do Brasil (ACB).
Vamos entender lá o que se passava nas cabecinhas dos policiais americanos. Com boa vontade, faz favor. Situações suspeitas eram indícios que mereciam verificação. Um carro parado fora de estacionamento e com placa provisória? Três indivíduos com aparência de latinos? Àquela hora? Só podem ser vagabundos. Pensando bem, até que os oficiais não estavam tão errados assim...Mas não precisava esculachar. Só que os policiais de lá não esperavam pra ver e procuravam os problemas, antes que estes se desenrolassem. Aquela situação me lembrou de uma madrugada fria em um dos inúmeros motéis de beira de estrada em que ficamos, quando observei um carro de polícia rondando, com seu oficial inexpressivo e silencioso, que entre um gole e outro de sua caneca de cafeína aguada conferia no seu computador de bordo as placas dos carros estacionados.
Assim, naquela tarde de verão, à sombra da Ponte Dourada, como de nada puderam acusar-nos, os desapontados policiais de Frisco ordenaram que saíssemos dali, avisando-nos que, caso quiséssemos insistir na idéia de tirar fotos, que nos dirigíssemos aos locais assinalados com as placas de “pontos panorâmicos” ou coisa assim, porque ali onde estávamos era perigoso. Mas isso a gente já tinha entendido: o perigo era a própria polícia metropolitana!
Foi então que entendi o porque de nosso déja vu inicial de São Francisco: ora, todas as fotos e imagens daquela e de todas as belas paisagens americanas deviam ser clicadas sempre dos mesmos ângulos. Só daqueles que tinham as tais plaquinhas que queriam dizer "seu burro, aqui é que lugar de fotografar".
Desistimos então de temporizar o eterno crepúsculo de São Francisco e procurar um lugar para passar a noite.
Alguém resmungou:
- Amanhã a gente compra alguns cartões postais da Ponte. Vai dar no mesmo e ninguém vai nos prender por isso.
Deu no mesmo, mas tentaram me prender de novo por outro motivo, que dia desses eu conto.
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