quarta-feira, 19 de maio de 2010

Pelo Alasca de Carona

Quando a gente quer muito, mas muito mesmo alguma coisa, ela acontece. Eu estava pensando na verdade contida naquelas palavras, enquanto estávamos, eu e meus parceiros de viagem, na beira daquela estrada. Colocamos nossos pertences sob a tenda de náilon e ficamos ali, por um bom tempo, pedindo carona na beira da estrada entre Valdez e Anchorage, no Alasca.

Os poucos carros e caminhões que passavam nos ignoravam, deixando apenas um rastro de fumaça e gelo na pista deserta. Já chegava a noite, apesar de não parecer, já que em maio nunca anoitecia naquela imensidão de branco e montanhas do pólo norte. Não falávamos muito, cada um de nós imerso em seus próprios pensamentos. Quando começou a chover forte demais, atravessamos a estrada, deixando nossas coisas ali mesmo, sob a chuva grossa. Fomos para uma lavanderia deserta, que ficava no outro lado da pista para Anchorage, mas que parecia um excelente refúgio para o frio intenso que fazia lá fora, abaixo de dois graus centígrados. Era uma daquela lavanderias “coin-up”, ou seja, totalmente operadas pelo cliente com uso das moedas de vinte e cinco centavos, verdadeiras chaves que abriam um monte de portas naquele país. Com elas, as moedas, o cliente podia comprar uma pequena caixa de sabão em pó, café aguado e o jornal local, enquanto utilizava as lavadoras e secadoras, tudo bem ao estilo americano de “faça você mesmo e não encha meu saco”.

Aproveitamos para colocar para secar os nossos casacos, que já estavam ensopados, e ficamos observando o rodar da máquina, hipnotizados. Alguém teve a idéia de ligar a televisão e sintonizou um clipe do Mike and The Mechanics, uma banda inglesa que eu adorava. No videoclipe eles tocavam a canção All I Need Is A Miracle, cujo título me pareceu muito adequado para a situação em que eu me encontrava. Somente um milagre podia me tirar daquela situação, já que tudo o que eu imaginava como provável de acontecer, tinha simplesmente se dissolvido como areia nas minhas mãos e em poucos dias. Eu e os meus colegas de viagem não tínhamos qualquer idéia sobre o que fazer naquela situação. Sabíamos que não poderíamos simplesmente ligar para nossos familiares pedindo ajuda e sermos resgatados como náufragos à deriva nos nossos próprios sonhos, mas essa era a última das opções por uma questão de honra. Tínhamos que encontrar, em algum lugar o fio da meada, o ponto onde a gente havia perdido o caminho, quando tudo até então parecia pender favoravelmente para o nosso lado e as boas coincidências aconteciam, como a de termos encontrado pessoas que nos ajudaram tanto, os carros com os quais cruzamos o imenso país, no esquema de “driveaway", sem dar qualquer problema mecânico. Paradas inesquecíveis que fizemos ao longo do Golfo do México, as lindas paisagens desérticas no Arizona, a visita ao Grand Canyon.

E agora, apenas a chuva fina numa estrada deserta e uma canção na qual o destino parecia estar rindo da nossa cara, com o Mike e seus “mecânicos” cantando ‘tudo o que preciso é de um milagre’.

Enquanto nossa roupa secava, um policial rodoviário parou seu carro e caminhou até nossas coisas deixadas à beira da estrada. Olhou, olhou mais um pouco, voltou para o carro e se foi. Tínhamos que sair dali, senão logo teríamos problemas com a lei e pra piorar a situação, nos restava pouquíssimo dinheiro e procurávamos economizar cada centavo.

Resignados e de certa forma refeitos após o descanso, pegamos nossas mochilas e seguimos estrada abaixo, em direção a Anchorage. Nossa lógica era a seguinte: se Anchorage era realmente a maior cidade do Alasca, seria lá que alguma oportunidade de trabalho poderia aparecer. Valdez e as cidades vizinhas nos pareciam assustadoramente pequenas, com suas casas de madeira isoladas entre si por grandes propriedades de bosques e florestas. Nada de prédios, lojas, lanchonetes ou albergues onde imigrantes famintos pudessem arrumar um emprego ilegalmente sem serem pegos pelos oficiais de imigração americanos.

Como o clarão esbranquiçado da noite ártica já trazia seus enormes e famintos mosquitos, resolvemos parar para dormir. Encontramos um pátio de estacionamento de uma loja de conveniência, onde algumas carretas de caminhão jaziam, meio que abandonadas. Escolhemos uma e nela prendemos o teto da tenda. O caminhão parado serviu então de suporte para nossa improvisada barraca.

Na paisagem deserta, os mosquitos já atacavam até os postes de luz, insaciáveis. Como o zíper da nossa tenda estava muito destruído, tivemos a desesperada idéia de usar agulha e linha para costurar a entrada, selando nossa improvisada moradia até o dia seguinte. Após alguns minutos eliminando os mosquitos que tinham conseguido entrar, ficamos finalmente em paz, ouvindo o pipocar da chuva na tenda, sobre nossas cabeças molhadas. Suspiramos fundo e nos encolhemos em nossos cobertores e sacos de dormir, procurando a reconfortante companhia dos sonhos.

Fazia muito frio e caía uma fina camada de gelo lá fora, no meio do nada, no topo do mundo, onde todas as dúvidas e incertezas do mundo espreitavam.

2 comentários:

  1. Texto bonito!

    Nada como ficar sozinho com os nossos pensamentos.....

    Leonardo Berretta

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  2. O momento mágico do seu texto,onde me identifiquei mais profundamente, é quando tudo parece perdido, a gente para para olhar para trás e ver o quanto já andamos, quanta sorte nos foi baforada até então, e aí vem um insight, uma música, que nos traz experança e traz a nossa mente para junto do corpo novamente. Bela experiência de vida.

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