Manhattan Beach era uma cidadezinha de praia no Sul da Califórnia, que mal aparecia nos mapas de Los Angeles. Um pouco maior que o bairro de Ipanema, que ficava na minha distante cidade natal do Rio de Janeiro, Manhattan era quase tão bonita, ponteada por uma longa praia de areia fofa e águas escuras, frias e freqüentemente turbulentas. Possuía uma ciclovia construída sobre a areia que percorria toda a sua extensão, por vezes bem perto das casas que ficavam debruçadas na praia, quase rente ao mar, até que se encontrava com o marco imaginário que separava Manhattan de sua praia irmã, Hermosa Beach.
Protegidos do mar escuro e gelado nas suas roupas de neoprene, nem sempre amarelas e pretas, os surfistas disputavam marolas sob o antigo píer de pescadores, perigosamente próximos das colunas cravejadas de cracas e mariscos, que se erguiam da água por uns dez metros e sustentavam sua enorme estrutura. O píer de Manhattan Beach, construído nos anos mil novecentos e vinte e cuja estrutura metálica eu futuramente passaria semanas a pintar com uma tinta azul celeste pegajosa, abrigava em sua extremidade, frente ao Pacífico, um museu aquático desinteressante, repleto de fotos amareladas de pescadores bronzeados nas paredes e frascos de formol com seres gosmentos nas prateleiras empoeiradas.
Alguns distraídos pescadores na verdade davam de comer aos peixes, que muito raramente engoliam os anzóis também, apenas para tornarem-se iscas frescas, ou serem atirados de volta à água, de tão pequenos. Nunca havia visto um sortudo pescar qualquer ser marinho daquele píer que fosse muito maior do que as iscas que usava. Mesmo assim, no tal museu acumulavam-se fotos de peixes enormes que tinham sido capturados daquele píer, possivelmente uns vinte ou trinta anos antes. Tinha até uma foto de um tubarão, coitado, pendurado de ponta cabeça ao lado do orgulhoso predador.
Espalhada sobre uma íngreme colina, a pequena cidade oferecia a bela vista marinha para muitas das grandes casas sem muros ou cercas, ao longo dos “degraus” formados por ruas estreitas e com pouco movimento de carros e pedestres. O centro de Manhattan Beach era generoso no número de restaurantes de cardápio mexicano ou de frutos do mar,todos avidamente freqüentados por gente que pouco sabia sobre salário-imigrante ou gorjetas.
Quase no limite entre Manhattan e Hermosa Beach e umas quatro quadras da praia dali, ficava a quarta rua. Nessa rua, o número 225 pertencia a uma discreta casa de madeira de cor azul, de pintura um tanto descascada, com dois andares e um deque de madeira suspenso sobre a rua secundária. Lá no térreo, junto à garagem onde uma Ferrari Testarossa repousava de seus breves passeios de domingo, via-se uma pequena porta, sem qualquer indicação ou número. Dois degraus abaixo, além de um curto e estreito corredor, que separava o banheiro de um closet desproporcionalmente grande, avistava-se um cômodo. Um único aposento de teto baixo, com um beliche de apenas uma cama de casal. Uma minúscula cozinha e uma janela, que servia de acesso para um jardim externo completavam o apartamento. Um modesto paraíso para jovens brasileiros imigrantes, um cubículo subterrâneo à beira-mar; imagina só um andar térreo transformado em apartamento de solteiros: esta era a Caverna.
Ao chegar de volta de Hermosa e entrar na Caverna, encontrei meu amigo e "senhorio" Pepe já à minha espera e parecia estar afobado. Olhava para seu relógio de pulso, como o coelho da Alice faria, e me disse, ansioso:
- Vamos, rápido. Tenho um trabalho para você. Não podemos demorar, veste essa camisa branca, que eu te explico no caminho.
Deu uma risadinha e completou:
- Finalmente você vai poder me pagar o aluguel atrasado!
Não era hora para fazer perguntas. Imediatamente vesti umas bermudas velhas, calcei minhas surradas botas de trabalho e entrei na tal camisa, que tinha nas costas escrito “Jean Phillip Gerard Interior and Exterior Painting”. E lá fui, encontrando um lugar perto da janela, no "Paintermobile", o valente caminhão branco da companhia, que abrigava o equipamento de pintura que usaríamos, de pincéis a escadas, tudo em seus quinhentos mil compartimentos, bem guardadinho. Começava ali a carreira do pintor mais desajeitado do mundo, que nunca havia segurado uma broxa antes na vida.
Algumas horas depois, à mesa de um restaurante mexicano, ao lado de meu novo franco-americano chefe, cujo nome você já adivinhou, eu almoçava um gordurosamente suculento Super De Luxe Burrito, regado por uma cerveja estupidamente. Fiquei pensando no estranho simbolismo de tudo aquilo… Como algumas horas antes eu estava dando meus últimos centavos a um pedinte americano, em Hermosa Beach.
Agora, eu estava empregado a cinco dólares a hora, numa pequena firma de pintura de Manhattan Beach e começava a achar razoável utilizar quase todo o meu salário para pagar o aluguel da pitoresca Caverna à beira-mar.
Foi quando me dei conta que há alguns meses atrás outra reviravolta desse tipo tinha ocorrido, lá no albergue de Anchorage, naquela estranha tarde quando a Pat, que me atendeu no balcão enquanto eu fechava a conta, me olhou curiosa e perguntou por que eu estava indo embora do Alasca. Se eu não tinha gostado, ou o quê. E a verdade era que os meus verdes dólares tinham simplesmente acabado. Finished. Eu disse isso a ela, que então gentilmente me convidou a hospedar-me em sua bela e confortável casa e fazer parte de sua família enquanto estivesse no Alasca.
Então eu concluí que era lá, no olho do furacão, daquele lugar de onde eu olhava, temporariamente protegido contra toda a confusão e destruição, que morava a esperança.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
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