sexta-feira, 14 de maio de 2010

POKESDOWN

A casa 7 ficava perto de uma estação de trem chamada Pokesdown, num bairro classe média-baixa da cidade de Bournemouth. Para este detalhe da classe social predominante do bairro, eu só atentei depois que o Daniel me avisou para tomar cuidado, porque era perigoso andar sozinho à noite. Um brasileiro como eu nunca chegaria a qualquer conclusão como essa, já que os bairros pobres do nosso país são muito fáceis de identificar e não tinham nada a ver com Pokesdown. Bairro que pode se gabar de ser pobre no Brasil não tem calçamento decente nas ruas, tem casas caindo aos pedaços e, é claro, gente pouco abastada rondando em procura do que fazer para ganhar a única refeição do dia.
Em Pokesdown as ruas eram bem pavimentadas, com várias lojas reluzentes e um lindo parque arborizado cujas trilhas levavam ao mar, passando por belas vistas da praia de areia e pedrinhas abaixo. A casa 7 não era nova, isso é verdade. Estava mesmo precisando de uma reforma, mas estava tudo lá no lugar certo: portas, janelas a prova de som (e de frio) e um bom quintal lotado de ervas daninhas e que tinha até uma árvore magrela.
É que na Inglaterra do início deste século, ninguém era tão pobre assim e os ricos se mudavam para outro país mais moderno, geralmente os Estados Unidos, onde o idioma era quase o mesmo e os impostos saiam mais em conta. A verdade era que os verdadeiros súditos da Rainha-Mãe que não tinham emprego recebiam pelos correios um lindo cheque quinzenal de umas duzentas e poucas libras que davam pra viver dignamente, se o cara não fosse muito ambicioso. É claro que, como era o caso das pessoas da casa 7, os desempregados ou imigrantes como eu acabavam dividindo o aluguel de uma casa grande e cada um ficava com um aposento. Na casa 7 éramos 6: eu, Daniel, O Carneiro, Rossana, Melanie e O Arvorista. Como eram cinco aposentos, O Carneiro e Rossana dormiam juntos e acabaram até namorando e sendo felizes por algumas semanas. É claro que isso foi antes de O Carneiro convidar duas meninas para uma festinha muito divertida, da qual a Ross não gostou nada e até acabou quebrando o vidro da janela com um soco e tentou se suicidar tomando uma caixa inteira de comprimidos para enxaqueca. Não funcionou, é claro, mas ela nunca mais reclamou de dor de cabeça.
Do lado de dentro, a casa era muito curiosa. Na primeira vez que entrei lá, até notei, apesar da penumbra permanente enfumaçada em que a casa se encontrava, que os tapetes e papel de parede haviam sido arrancados sem muito cuidado, deixando à vista as tábuas do chão e das paredes, dando um visual pós-guerra sensacional. Tinha uma coisa muito legal na casa 7, que era a boa música que tocava 24 horas por dia, cortesia da Melanie que também vivia passando os mais novos filmes de Hollywood naquela televisão enorme. Tinha também o entra e sai de clientes da Melanie, que vendia uns comprimidos que deixavam todos muito alegres e amigáveis.
O meu quarto era inicialmente uma espécie de depósito de tralhas, que com alguma arrumação se tornaram um mobiliário útil, já que eu havia me mandado do Brasil com apenas uma mala e alguns instrumentos musicais. Era também o quarto mais frio e eu tinha que dormir completamente vestido no inverno, mesmo com o aquecimento no máximo. Mas eu não tinha o que reclamar: tinha minha privacidade e até um banheiro que ficava ao lado e contava com uma grande banheira daquelas bem antigas, de porcelana.
Quando cheguei, só consegui sair de casa depois de uma semana, quando já estava mais adaptado ao clima gélido daquele mês de novembro e ainda assim me assustei quando vi montes de gelo empilhados pelas calçadas. Eu até pensei, como um bom idiota do hemisfério sul, “ué, quem será que derrubou todo este gelo aqui?” até entender que a natureza tomava este cuidado todo ano, naquela mesma época.
Na esquina tinha uma padaria, daquelas que você não vê mais nas grandes cidades do Brasil, com grandes pães artesanais arrumados nas prateleiras e os deliciosos folhados de carne e legumes, características guloseimas britânicas. No fim da rua tinha uma delegacia, de onde saíam carros com lindas policiais muito maquiadas e algumas ambulâncias histéricas.
Fora da casa 7, as pessoas não eram muito gentis comigo, mas isso eu conto depois.

Um comentário:

  1. PARABÉNS!!! PARABÉNS!!! PARABÉNS!!!
    1º- Pela brilhante idéia de 'abrir' teu sensacional livro aqui!
    2º- Pela prazeirosa leitura que vc nos proporciona!
    3º- Pelo teu 'Niver'!!!
    Sucessooooo
    bjs&bjs

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