Mostrando postagens com marcador backpackers in usa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador backpackers in usa. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Polícia Para Quem Nem Precisa

Chegar a São Francisco dá uma sensação forte de déja vu, aquilo que te dá quando a décima pessoa sem noção começa a te explicar o que essa expressão significa. Quem é velho o suficiente para ter pêlos nas orelhas e se perguntar para que servem, já assistiu trocentos filmes focalizando aquele visual belíssimo da baía de Hudson e da Golden Bridge, e sabe o que eu quero dizer. Aliás, essa é a sensação freqüente que o visitante experimentava, quando se deparava pela primeira vez com as localidades cujas imagens se tornaram clássicas graças ao cinema ou à TV. Era o preço pago pelos americanos, que acostumaram-se a despejar pelo mundo afora, em forma de rolos de filme e roteiros repletos de chavões, suas obras repletas de ideologia auto-promocional. Nada contra. Assisto de montão, feliz da vida.

Verdade ou ficção, em algumas situações surreais me ocorria uma dúvida terrível sobre quem tinha aparecido primeiro na Califórnia:

a) as pessoas comuns, cujos diálogos se pareciam mais reais na tela do que à luz da vida
b) a Associação Hollywoodiana de Redatores

Dia desses, perguntei ao meu amigoTarantino, "me diz aí quem surgiu primeiro". Ele me respondeu, com aquele jeitinho que é só dele:

- É claro que foi a AHR. E já falei que meu nome é TarantiNHO, não sou seu amigo e não entendo picas de cinema.

Mesmo assim, ficamos fascinados com a imagem da bela ponte naquela cor incrivelmente alaranjada, com a baía de Hudson ao fundo e resolvemos dar uma parada para observar o crepúsculo que se avizinhava. Paramos o carro num local que consideramos seguro e, de câmera na mão, fomos registrar o visual. Dois cliques de máquina fotográfica depois, nos vimos completamente cercados de policiais carrancudos com suas mãos rosadas sobre os coldres. Deviam ser uns quatro carros de polícia, incluindo uma van daquelas de transporte de presos. Um verdadeiro destacamento coloria a paisagem com suas luzes giratórias, tendo o nosso carro no centro do círculo, refletindo o espetáculo.

Alguém gritou "freeze!"

Foi tudo muito rápido e ficamos mesmo congelados, à espera de instruções e dispensando traduções. Àquela altura, com mais de cinco mil quilômetros de estradas americanas percorridas, já estávamos mais que experientes sobre como agir na mira de uma corporação que atirava antes e perguntava depois, a temida polícia dos gringos. Assim como naquele jogo infantil “como está fica”, prendemos até a respiração. Um dos oficiais se dirigiu a nós bruscamente, exigindo que nos identificássemos e perguntando o que fazíamos ali.

A minha resposta podia envolver a mãe dele e me colocar em alguma encrenca, por isso me limitei a entregar a ele o meu passaporte verde brasileiro, todo amassadão, e minha carteira de motorista internacional fuleira, emitida pela instituição mundialmente desconhecida e ignorada, que era o Automóvel Club do Brasil (ACB).

Vamos entender lá o que se passava nas cabecinhas dos policiais americanos. Com boa vontade, faz favor. Situações suspeitas eram indícios que mereciam verificação. Um carro parado fora de estacionamento e com placa provisória? Três indivíduos com aparência de latinos? Àquela hora? Só podem ser vagabundos. Pensando bem, até que os oficiais não estavam tão errados assim...Mas não precisava esculachar. Só que os policiais de lá não esperavam pra ver e procuravam os problemas, antes que estes se desenrolassem. Aquela situação me lembrou de uma madrugada fria em um dos inúmeros motéis de beira de estrada em que ficamos, quando observei um carro de polícia rondando, com seu oficial inexpressivo e silencioso, que entre um gole e outro de sua caneca de cafeína aguada conferia no seu computador de bordo as placas dos carros estacionados.

Assim, naquela tarde de verão, à sombra da Ponte Dourada, como de nada puderam acusar-nos, os desapontados policiais de Frisco ordenaram que saíssemos dali, avisando-nos que, caso quiséssemos insistir na idéia de tirar fotos, que nos dirigíssemos aos locais assinalados com as placas de “pontos panorâmicos” ou coisa assim, porque ali onde estávamos era perigoso. Mas isso a gente já tinha entendido: o perigo era a própria polícia metropolitana!

Foi então que entendi o porque de nosso déja vu inicial de São Francisco: ora, todas as fotos e imagens daquela e de todas as belas paisagens americanas deviam ser clicadas sempre dos mesmos ângulos. Só daqueles que tinham as tais plaquinhas que queriam dizer "seu burro, aqui é que lugar de fotografar".

Desistimos então de temporizar o eterno crepúsculo de São Francisco e procurar um lugar para passar a noite.

Alguém resmungou:

- Amanhã a gente compra alguns cartões postais da Ponte. Vai dar no mesmo e ninguém vai nos prender por isso.

Deu no mesmo, mas tentaram me prender de novo por outro motivo, que dia desses eu conto.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Pelo Alasca de Carona

Quando a gente quer muito, mas muito mesmo alguma coisa, ela acontece. Eu estava pensando na verdade contida naquelas palavras, enquanto estávamos, eu e meus parceiros de viagem, na beira daquela estrada. Colocamos nossos pertences sob a tenda de náilon e ficamos ali, por um bom tempo, pedindo carona na beira da estrada entre Valdez e Anchorage, no Alasca.

Os poucos carros e caminhões que passavam nos ignoravam, deixando apenas um rastro de fumaça e gelo na pista deserta. Já chegava a noite, apesar de não parecer, já que em maio nunca anoitecia naquela imensidão de branco e montanhas do pólo norte. Não falávamos muito, cada um de nós imerso em seus próprios pensamentos. Quando começou a chover forte demais, atravessamos a estrada, deixando nossas coisas ali mesmo, sob a chuva grossa. Fomos para uma lavanderia deserta, que ficava no outro lado da pista para Anchorage, mas que parecia um excelente refúgio para o frio intenso que fazia lá fora, abaixo de dois graus centígrados. Era uma daquela lavanderias “coin-up”, ou seja, totalmente operadas pelo cliente com uso das moedas de vinte e cinco centavos, verdadeiras chaves que abriam um monte de portas naquele país. Com elas, as moedas, o cliente podia comprar uma pequena caixa de sabão em pó, café aguado e o jornal local, enquanto utilizava as lavadoras e secadoras, tudo bem ao estilo americano de “faça você mesmo e não encha meu saco”.

Aproveitamos para colocar para secar os nossos casacos, que já estavam ensopados, e ficamos observando o rodar da máquina, hipnotizados. Alguém teve a idéia de ligar a televisão e sintonizou um clipe do Mike and The Mechanics, uma banda inglesa que eu adorava. No videoclipe eles tocavam a canção All I Need Is A Miracle, cujo título me pareceu muito adequado para a situação em que eu me encontrava. Somente um milagre podia me tirar daquela situação, já que tudo o que eu imaginava como provável de acontecer, tinha simplesmente se dissolvido como areia nas minhas mãos e em poucos dias. Eu e os meus colegas de viagem não tínhamos qualquer idéia sobre o que fazer naquela situação. Sabíamos que não poderíamos simplesmente ligar para nossos familiares pedindo ajuda e sermos resgatados como náufragos à deriva nos nossos próprios sonhos, mas essa era a última das opções por uma questão de honra. Tínhamos que encontrar, em algum lugar o fio da meada, o ponto onde a gente havia perdido o caminho, quando tudo até então parecia pender favoravelmente para o nosso lado e as boas coincidências aconteciam, como a de termos encontrado pessoas que nos ajudaram tanto, os carros com os quais cruzamos o imenso país, no esquema de “driveaway", sem dar qualquer problema mecânico. Paradas inesquecíveis que fizemos ao longo do Golfo do México, as lindas paisagens desérticas no Arizona, a visita ao Grand Canyon.

E agora, apenas a chuva fina numa estrada deserta e uma canção na qual o destino parecia estar rindo da nossa cara, com o Mike e seus “mecânicos” cantando ‘tudo o que preciso é de um milagre’.

Enquanto nossa roupa secava, um policial rodoviário parou seu carro e caminhou até nossas coisas deixadas à beira da estrada. Olhou, olhou mais um pouco, voltou para o carro e se foi. Tínhamos que sair dali, senão logo teríamos problemas com a lei e pra piorar a situação, nos restava pouquíssimo dinheiro e procurávamos economizar cada centavo.

Resignados e de certa forma refeitos após o descanso, pegamos nossas mochilas e seguimos estrada abaixo, em direção a Anchorage. Nossa lógica era a seguinte: se Anchorage era realmente a maior cidade do Alasca, seria lá que alguma oportunidade de trabalho poderia aparecer. Valdez e as cidades vizinhas nos pareciam assustadoramente pequenas, com suas casas de madeira isoladas entre si por grandes propriedades de bosques e florestas. Nada de prédios, lojas, lanchonetes ou albergues onde imigrantes famintos pudessem arrumar um emprego ilegalmente sem serem pegos pelos oficiais de imigração americanos.

Como o clarão esbranquiçado da noite ártica já trazia seus enormes e famintos mosquitos, resolvemos parar para dormir. Encontramos um pátio de estacionamento de uma loja de conveniência, onde algumas carretas de caminhão jaziam, meio que abandonadas. Escolhemos uma e nela prendemos o teto da tenda. O caminhão parado serviu então de suporte para nossa improvisada barraca.

Na paisagem deserta, os mosquitos já atacavam até os postes de luz, insaciáveis. Como o zíper da nossa tenda estava muito destruído, tivemos a desesperada idéia de usar agulha e linha para costurar a entrada, selando nossa improvisada moradia até o dia seguinte. Após alguns minutos eliminando os mosquitos que tinham conseguido entrar, ficamos finalmente em paz, ouvindo o pipocar da chuva na tenda, sobre nossas cabeças molhadas. Suspiramos fundo e nos encolhemos em nossos cobertores e sacos de dormir, procurando a reconfortante companhia dos sonhos.

Fazia muito frio e caía uma fina camada de gelo lá fora, no meio do nada, no topo do mundo, onde todas as dúvidas e incertezas do mundo espreitavam.